domingo, 1 de abril de 2012

clepto - serie de colagens de Cairo Morais

“Ternura não é a palavra certa, mas explica melhor essa mistura de gratidão em relação ao corpo de onde se tira o prazer, de doçura que se funde quando o prazer escorre, de lassitude física, mesmo de nojo que nos afoga e alivia, que nos afunda e nos faz vagar de tristeza enfim; e essa pobre ternura, emitida um pouco como um raio cinzento e doce, continua a alterar delicadamente os simples relacionamentos físicos” Jean Genet.
Esta fala é ótima e me faz prestar mais atenção nas colagens a partir deste pensamento. Estas são minhas primeiras colagens que fiz com recortes de varias revistas que compro seletivamente. Fui recentemente adjetivado de clepto, que vem de cleptomaníaco. Logo me tomei esta palavra, pois me deu um total sentido ao que faço. Uma vez que nada destas colagens abaixo vem da minha pessoa, em detrimento de que apenas corto e recorto o que digo ser bonito e colo ao meu gosto.

Cairo Morais-01.12
Cairo Morais-01.12
Cairo Morais-01.12
Cairo Morais-01.12
Cairo Morais-01.12
Cairo Morais-01.12
Cairo Morais-01.12
Cairo Morais-01.12
Cairo Morais-01.12

coito do coitado

Acabo de assisti ao tão comentando Shame, de Steve McQueen, e esperava ser apenas mais um filme com nudez explicita e só por isso faria um certo barulhinho. Ainda bem que quebrei a cara. Tudo que se tem falado ou escrito sobre ele e absolutamente procedente. Fiz uma busca na minha memoria cinematográfica, por exemplo, que não chega a ser tão prodigiosa em termos de números, mas bastante seletiva, e não me lembro de ter assistido a nada mais perturbador e interessante. Sou fã assumido de clássicos como 9 Semanas e Meia de Amor, Ata-me e Intinto Selvagem, não tenho o menor pudor em colocar Shame entre essas perolas do cinema mais… apimentado (Saló do Pasolini não existe). O filme é basicamente sobre o desejo sexual compulsivo. Um viciado em sexo. Assim mesmo, sem rodeios. O diferencial esta na sua abordagem: realista no sentido de expressar o que realmente acontece nos dias de hoje (a facilidade de se fazer muito sexo, aliada a uma certa angustia), mas com um olhar absolutamente melancólico, nada comum para filmes dessa natureza.
Para minha surpresa, Steve McQueen (que é artista plástico) já estava de olho no tema que há tempos venho pensando. Na revista Dazed and Confused, de fevereiro, ele disse que só fez o filme porque o “assunto pedia”. Não da mesmo para ignorar essa oferta absurda de prazer a que estamos expostos, todos os dias – o que o filme mostra, sem julgar. O roteiro é bem intimista, com pouquíssimos personagens, a narrativa é das mais lentas, assim como A Single Man, de Tom Ford, mas nem por isso é chata ou se leva a serio demais. Com o perdão do trocadilho, é um filme sem vergonha, mas na medida certa.
Em suma, não façam como alguns blogueiros gays que assistiram apenas para ver o… a genitália desnuda de Michael Fassbender. O filme tem outros atrativos, e muito mais que um simples detalhe. Bom, não chega a ser tão simples assim, mas...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

bom dia... boa tarde... boa noite... bom diA!


Depois de viver um belo carnaval interminável, a semana seguiu melancólica por essas bandas de cá, mas ontem a alegria deu as caras na minha bipolaridade e eu me animei e fui pra rua comemorar. O que? O fato de estar vivo ora. Simples assim. Depois de ler e me emocionar com uma mensagem deixada pela empresaria Eliana Tranchesi, antes de morrer, no blog da sua filha, e também a reportagem de capa da revista Época desta semana, com o ator Reinaldo Gianecchini (de quem não sou fã), percebi que as vezes reclamo demais. Meus amigos mais próximos vêem nisso ate certo charme, uma marca registrada minha, “Ah, Cairo, você é um velhinho. Se você não reclamar, não e você”. Claro que a maioria das vezes a minha rabugice é pura cena, mas, ainda assim, resolvi ligar o sinal de alerta. O lema agora é: “Aproveitar o dia”. Mas aproveitar mesmo. E quem sabe até me distanciar um pouco dessa dor chamada arte.

Bom, depois de caminhar pelo centro da Imperosa e uma tentativa frustrada de ir ao cinema com meu Love ver “o homem que não amava as mulhers”, corri para assistir ao Artista, nos 45 do segundo tempo, afinal o Oscar estava chegando e prometia consagrar essa terna obra-prima do cinema. De cara, o filme não me pegou, demorei um pouco ate me acostumar com essa nova velha linguagem do cinema mudo. Dito assim, a queima roupa, vocês podem achar que estou trocando as bolas, mas logo vão me entender. Resumindo bem, O Artista, de Michel Hazanavicius, conta a historia de um ator do cinema mudo, George Valentin, as voltas com as suas frustrações impulsionadas pelas novas transformações do cinema, ao passo em que vive uma tórrida paixão por uma aspirante a atriz, Peppy Miller, mais ambiciosa e que pensa exatamente o contrario que ele, ela vê no cinema falado uma ótima oportunidade de alavancar sua carreira. Coloque ali varias referencias cinematográficas, varias mesmo!, no visual, na trilha, intertextualidades com vários filmes (De Chaplin a Cinema Paradiso), uma fotografia e figurinos deslumbrantes, uma atuação impecável de Jean Dujardin e, pronto, emoção pura. Ah, claro, e um cãozinho charmoso chamado Ugiee que, cá pra nos, deveria estar na disputa para melhor ator coadjuvante. Um filme delicado, poético, que cada um vai assistir e perceber-lo de maneiras diferentes, “Ah, é só uma homenagem boba ao cinema”, “Ah, é legal mostrar as novas gerações como eram os filmes mudos” e por ai vai. Lendo engano, acho que o filme encanta não apenas por mostrar que o gesto, a delicadeza, a expressão, o trabalho de ator esta sendo substituído por efeitos especiais e um monte de artifícios criados pela própria industria para acompanhar a evolução do cinema, mas mostra também o quanto estamos perdendo a inocência, o quanto somos expostos diariamente a tantas e tantas informações, ao ponto de causar estranheza uma linguagem que de nova não tem absolutamente nada. Cinema é e sempre será imagem e, quando houver uma boa historia por trás, o casamento será perfeito. Acho que as cinco estatuetas do Oscar estão de bom tamanho e viva a inteligência no cinema.

Depois aceitei a sugestão de um amigo para ver “Estamos Juntos”, um filme nacional de Toni Venturi que eu já queria muito assistir, desde que fui à Goiânia no ano passado, protagonizado e produzido pela ótima e jovem atriz Leandra Leal. Esse é um daqueles filmes que nos revira de cabeça pra baixo e nos faz perceber que a vida é mesmo muito rara, como diz a canção do Lenine e que no final do filme ganhou uma versão excelente, na voz da Elza Soares. O roteiro é sobre a vida de uma jovem medica, Carmem, que descobre que tem uma doença grave, exatamente quando esta numa ótima fase da sua vida. Sem muitos amigos – apenas um gay, vivido de forma muito ruim por Cauã Reymond –, e com uma relação (imaginaria?) com um homem misterioso, ela conhece o prazer sexual com um jovem musico argentino, mas não se liga a ele afetivamente. Com o avanço da doença, Carmem tenta driblar as dificuldades, a medida em que vai conhecendo seus medos, suas angustias e mudanças pelo meio do caminho são inevitáveis. Em alguns momentos, ele nos remete a “Mentiras y Gordas”, um filme espanhol de 2009, bem interessante por sinal. Duas coisas eu curti muito nesse filme: apesar do tema, ele não é nem um pouco moralizante (olha, aproveite a vida enquanto ha tempo!) e segundo que ele é tão bem feito (com um quê de filme argentino), como o também ótimo Como Esquecer, de Malu De Martino. E eu que não esperava que o filme corroborasse essa minha nova urgência de aproveitar melhor o dia, só posso dizer que a vida não só imita a arte (e vice-versa), mas principalmente se surpreende com ela. Que ninguém se mate e aproveite o dia...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

foto de Cairo Morais

12.10.09 Cairo Morais

mando notícias do mundo de lá

Depois de meses prometendo ser o lançamento musical do ano, assisti ao clipe novo da cantora Madonna e de cara torci o nariz. A música é tão chata e grudenta que faz qualquer cantor de axé music parecer o supra-sumo da MPB. O clipe é pior ainda, repete os mesmos clichês de sempre, carões e autolovacao. Criatividade zero. No desespero de se manter no topo e de causar impacto com suas noticias, a cantora não mede mesmo esforços para aparecer e sempre que pode manipular a mídia. Mas tem passado dos limites. Pedir aos fãs que guardem dinheiro para assistir ao seu show foi, de longe, a coisa mais ridícula que ela já pronunciou em toda a sua carreira. Por outro lado, isso reflete o que todos nos já sabíamos sobre ela e fingíamos não perceber, a diva pop só quer mesmo lucrar com os seus fieis seguidores. E não se trata de implicância minha, não. Reconheço que ela é ainda um grande nome da musica pop, gosto muito do seu trabalho dos anos 80 e 90, mas depois ela só foi despencando e precisa urgente sair da zona de conforto ou simplesmente pendurar as chuteiras, o que deve ser quase impossível. Pelo menos por enquanto. A apresentação no Super Bowl foi tão carnavalesca e megalomaníaca que só serviu mesmo para disfarçar o seu cansaço criativo. Sim, porque dar piruetas pra la e pra ca nao e atestado nenhum de qualidade musical. Eu ainda acho antológica a apresentação do Michael Jackson no mesmo evento, em 1993, a luz do dia, num palco bem menos ornamentado, mas ninguém desgrudou os olhos do artista um único segundo, um primor de apresentação e que se encontra facilmente na internet.
Passei a semana vendo noticias pipocarem sobre uma nova estrela, Lana Del Rey. Conhecem? Fui correndo atrás, ávido por uma boa novidade. Não tive paciência para garimpar tudo, mas apesar de Born To Die ser extremamente melancólica (e por isso a considero também uma representante mor desses tempos bicudos), gostei da voz da cantora e ate do seu aparente jeito inseguro. Visualmente tem uma elegância natural que me agradou. Ainda vamos ouvir muito falar dela, para o bem ou para o mal. Melhor aguardar.
Mas o que me deixou irritado mesmo foi a frase infeliz do estilista Karl Lagerfeld sobre a cantora britânica Adele: “Ela e um pouco gorda demais, mas tem um rosto bonito e uma voz divina”. Ta, mas por que ela não pode ser gorda? Qual o problema? Depois que choveram criticas, o todo poderoso da Chanel resolveu se desculpar publicamente, mas e aquela historia, uma vez a flecha lancada... Merece ou não merece um bom “#Cala a boca, Lagerfeld!”? Todos nos sabemos o quanto a indústria da moda ignora pessoas acima do peso, mas fazer disso uma condição para a pessoa ser aceita é um crime. Eu, sinceramente, acho a cantora linda e com aquela voz ela não precisa de mais nada, apenas ser feliz. E ontem fiquei até 2 horas da madruga vendo sua apresentação no Grammy, ela foi um sucesso, melhor álbum, melhor música, enfim, a noite foi de ADEUL (como se pronúncia). Ouvi o seu Cd “21”, tão logo cheguei no ano passado, e de certa forma ele se tornou a trilha sonora dos meus dias cinzentos do final do ano passado até aqui. Na minha humilde opinião, o CD inteiro é muito bom e eu sempre me emociono toda vez que ouço Someone Like You.
Sem querer puxar brasa pra nossa sardinha, mas ja puxando, o que eu curti mesmo foi o novo CD da Gal Costa, Recanto, que baixei e ouvi ontem em minha casa. Achei de cara a sonoridade estranha e só por isso já o considerei corajoso e interessante, afinal de contas os artistas hoje estão cada vez mais caretas musicalmente... Quando soube que as letras e a produção eram do Caetano, exultei de alegria, porque ele é um dos meus cantores favoritos. Gosto bastante do seu jeito inquieto, culto, um exemplo de artista em atividade. A musica Neguinho é um hino contra a burrice e ao consumismo babaca (ter para aparecer), não tem como ficar indiferente a ela. No primeiro verso já tem o dedão na ferida: “Neguinho não lê, neguinho não vê, não crê, pra quê”... E não para por ai, nao, e uma paulada atrás da outra: “Votou, chorou, gozou: o que importa, neguinho? / Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro GPS e acha que é feliz / Neguinho também só quer saber de filme em shopping”. Genial. Fazia tempo que não tínhamos nada tão incomodo na MPB e esse disco novo da Gal veio para quebrar esse marasmo. Baixei, também, mas, ainda, não ouvi o novo álbum da Marisa Monte ”o que você quer saber de verdade”. Uma ótima pedida, com certeza. Bom, vou ficando por aqui, por que minha semana já começa com tragédia, tomara que não seja Grega... Pois não quero morrer no final.