


















Acabo de assisti ao tão comentando Shame, de Steve McQueen, e esperava ser apenas mais um filme com nudez explicita e só por isso faria um certo barulhinho. Ainda bem que quebrei a cara. Tudo que se tem falado ou escrito sobre ele e absolutamente procedente. Fiz uma busca na minha memoria cinematográfica, por exemplo, que não chega a ser tão prodigiosa em termos de números, mas bastante seletiva, e não me lembro de ter assistido a nada mais perturbador e interessante. Sou fã assumido de clássicos como 9 Semanas e Meia de Amor, Ata-me e Intinto Selvagem, não tenho o menor pudor em colocar Shame entre essas perolas do cinema mais… apimentado (Saló do Pasolini não existe). O filme é basicamente sobre o desejo sexual compulsivo. Um viciado em sexo. Assim mesmo, sem rodeios. O diferencial esta na sua abordagem: realista no sentido de expressar o que realmente acontece nos dias de hoje (a facilidade de se fazer muito sexo, aliada a uma certa angustia), mas com um olhar absolutamente melancólico, nada comum para filmes dessa natureza.
Para minha surpresa, Steve McQueen (que é artista plástico) já estava de olho no tema que há tempos venho pensando. Na revista Dazed and Confused, de fevereiro, ele disse que só fez o filme porque o “assunto pedia”. Não da mesmo para ignorar essa oferta absurda de prazer a que estamos expostos, todos os dias – o que o filme mostra, sem julgar. O roteiro é bem intimista, com pouquíssimos personagens, a narrativa é das mais lentas, assim como A Single Man, de Tom Ford, mas nem por isso é chata ou se leva a serio demais. Com o perdão do trocadilho, é um filme sem vergonha, mas na medida certa.
Em suma, não façam como alguns blogueiros gays que assistiram apenas para ver o… a genitália desnuda de Michael Fassbender. O filme tem outros atrativos, e muito mais que um simples detalhe. Bom, não chega a ser tão simples assim, mas...

Depois de viver um belo carnaval interminável, a semana seguiu melancólica por essas bandas de cá, mas ontem a alegria deu as caras na minha bipolaridade e eu me animei e fui pra rua comemorar. O que? O fato de estar vivo ora. Simples assim. Depois de ler e me emocionar com uma mensagem deixada pela empresaria Eliana Tranchesi, antes de morrer, no blog da sua filha, e também a reportagem de capa da revista Época desta semana, com o ator Reinaldo Gianecchini (de quem não sou fã), percebi que as vezes reclamo demais. Meus amigos mais próximos vêem nisso ate certo charme, uma marca registrada minha, “Ah, Cairo, você é um velhinho. Se você não reclamar, não e você”. Claro que a maioria das vezes a minha rabugice é pura cena, mas, ainda assim, resolvi ligar o sinal de alerta. O lema agora é: “Aproveitar o dia”. Mas aproveitar mesmo. E quem sabe até me distanciar um pouco dessa dor chamada arte.
Bom, depois de caminhar pelo centro da Imperosa e uma tentativa frustrada de ir ao cinema com meu Love ver “o homem que não amava as mulhers”, corri para assistir ao Artista, nos 45 do segundo tempo, afinal o Oscar estava chegando e prometia consagrar essa terna obra-prima do cinema. De cara, o filme não me pegou, demorei um pouco ate me acostumar com essa nova velha linguagem do cinema mudo. Dito assim, a queima roupa, vocês podem achar que estou trocando as bolas, mas logo vão me entender. Resumindo bem, O Artista, de Michel Hazanavicius, conta a historia de um ator do cinema mudo, George Valentin, as voltas com as suas frustrações impulsionadas pelas novas transformações do cinema, ao passo em que vive uma tórrida paixão por uma aspirante a atriz, Peppy Miller, mais ambiciosa e que pensa exatamente o contrario que ele, ela vê no cinema falado uma ótima oportunidade de alavancar sua carreira. Coloque ali varias referencias cinematográficas, varias mesmo!, no visual, na trilha, intertextualidades com vários filmes (De Chaplin a Cinema Paradiso), uma fotografia e figurinos deslumbrantes, uma atuação impecável de Jean Dujardin e, pronto, emoção pura. Ah, claro, e um cãozinho charmoso chamado Ugiee que, cá pra nos, deveria estar na disputa para melhor ator coadjuvante. Um filme delicado, poético, que cada um vai assistir e perceber-lo de maneiras diferentes, “Ah, é só uma homenagem boba ao cinema”, “Ah, é legal mostrar as novas gerações como eram os filmes mudos” e por ai vai. Lendo engano, acho que o filme encanta não apenas por mostrar que o gesto, a delicadeza, a expressão, o trabalho de ator esta sendo substituído por efeitos especiais e um monte de artifícios criados pela própria industria para acompanhar a evolução do cinema, mas mostra também o quanto estamos perdendo a inocência, o quanto somos expostos diariamente a tantas e tantas informações, ao ponto de causar estranheza uma linguagem que de nova não tem absolutamente nada. Cinema é e sempre será imagem e, quando houver uma boa historia por trás, o casamento será perfeito. Acho que as cinco estatuetas do Oscar estão de bom tamanho e viva a inteligência no cinema.
Depois aceitei a sugestão de um amigo para ver “Estamos Juntos”, um filme nacional de Toni Venturi que eu já queria muito assistir, desde que fui à Goiânia no ano passado, protagonizado e produzido pela ótima e jovem atriz Leandra Leal. Esse é um daqueles filmes que nos revira de cabeça pra baixo e nos faz perceber que a vida é mesmo muito rara, como diz a canção do Lenine e que no final do filme ganhou uma versão excelente, na voz da Elza Soares. O roteiro é sobre a vida de uma jovem medica, Carmem, que descobre que tem uma doença grave, exatamente quando esta numa ótima fase da sua vida. Sem muitos amigos – apenas um gay, vivido de forma muito ruim por Cauã Reymond –, e com uma relação (imaginaria?) com um homem misterioso, ela conhece o prazer sexual com um jovem musico argentino, mas não se liga a ele afetivamente. Com o avanço da doença, Carmem tenta driblar as dificuldades, a medida em que vai conhecendo seus medos, suas angustias e mudanças pelo meio do caminho são inevitáveis. Em alguns momentos, ele nos remete a “Mentiras y Gordas”, um filme espanhol de 2009, bem interessante por sinal. Duas coisas eu curti muito nesse filme: apesar do tema, ele não é nem um pouco moralizante (olha, aproveite a vida enquanto ha tempo!) e segundo que ele é tão bem feito (com um quê de filme argentino), como o também ótimo Como Esquecer, de Malu De Martino. E eu que não esperava que o filme corroborasse essa minha nova urgência de aproveitar melhor o dia, só posso dizer que a vida não só imita a arte (e vice-versa), mas principalmente se surpreende com ela. Que ninguém se mate e aproveite o dia...